Maria é mãe de Deus? O que significa Theotokos?

Entenda o significado de Theotokos, sua base bíblica e o que o título “mãe de Deus” afirma sobre Jesus na perspectiva reformada.

Teologia Reformada e CarismáticaPublicado em

Textos principais

  • João 1:1–14
  • Lucas 1:35–49
  • Gálatas 4:4–7
  • 1 Timóteo 2:1–6
  • Hebreus 2:14–18

Sim, Maria pode ser chamada de “mãe de Deus” no sentido cristológico histórico: ela é mãe de Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus que se fez homem. Isso não significa que Maria criou Deus, deu origem à divindade ou é mãe da Trindade.

A expressão exige explicação porque a palavra “Deus” pode ser entendida, nessa pergunta, como referência à pessoa do Filho ou à natureza divina. Maria deu à luz o Filho encarnado. A divindade dele é eterna e não começou em seu ventre.

Esse é o ponto central de Theotokos, termo grego tradicionalmente traduzido como “mãe de Deus”, com o sentido de “aquela que deu à luz Deus”. O título identifica aquele que nasceu de Maria. A própria explicação católica o relaciona à identidade de Jesus como o Filho eterno do Pai, a segunda pessoa da Trindade. Catecismo da Igreja Católica, §495.

Podemos examinar essa afirmação com a Bíblia aberta, sem transformar Maria em motivo de hostilidade entre cristãos e sem deixar de perguntar o que cada expressão realmente significa.

O Filho já existia antes de nascer de Maria

João começa seu Evangelho antes de qualquer referência a Belém. Em João 1:1–3, aquele que é chamado de Palavra já existe, está com Deus e é Deus. Todas as coisas foram criadas por meio dele. No versículo 14, essa mesma Palavra assume a nossa humanidade e habita entre nós. O nascimento de Jesus faz parte da história humana; a existência do Filho não começa ali. João 1:1–14, NVT.

Lucas apresenta outro aspecto dessa verdade. O anjo anuncia a concepção pela ação do Espírito Santo e identifica o menino como Filho de Deus. Depois, Isabel, cheia do Espírito, pergunta a Maria:

“Por que tenho a grande honra de receber a visita da mãe do meu Senhor?”

Essa é a formulação de Lucas 1:43 na NVT. O texto reconhece Maria como mãe daquele que Isabel chama de seu Senhor. Não contém a palavra Theotokos, nem apresenta sozinho toda a formulação dos concílios posteriores. Seu testemunho deve ser lido junto com o restante das Escrituras. Lucas 1:35–43.

Paulo, por sua vez, reúne o envio do Filho e seu nascimento de uma mulher em Gálatas 4:4–5. Deus envia seu Filho, que entra em nossa condição para nos resgatar e nos receber como filhos. Lido à luz de João, o texto aponta para o Filho que já existia e veio cumprir sua missão entre nós. A encarnação está ligada à nossa salvação. Gálatas 4:4–5.

Uma pessoa, duas naturezas

Para compreender o título, precisamos distinguir quem Jesus é e o que Jesus é.

Quanto à pessoa, ele é o Filho eterno. Quanto às naturezas, ele é plenamente Deus e plenamente homem. Sua humanidade é completa, com corpo e alma humanos. A encarnação não produz dois filhos nem transforma a divindade em humanidade.

A Confissão de Fé da Aviva, no capítulo sobre Cristo, afirma que o Filho assumiu natureza humana completa no ventre de Maria e que suas duas naturezas permanecem distintas e unidas em sua pessoa.

Maria é mãe de uma pessoa: Jesus. Sua maternidade diz respeito à concepção e ao nascimento humano desse Filho. Ela não é a origem de tudo o que ele é, pois ele é eternamente Deus.

Por isso, dizer que Maria é “mãe de Jesus” está correto. O cuidado necessário aparece quando alguém acrescenta: “somente do homem Jesus”, como se houvesse um homem separado do Filho divino. O menino que ela deu à luz é o próprio Filho encarnado.

Uma maneira clara de dizer isso é: Maria é mãe de Deus Filho segundo a humanidade; ela não é a origem da sua divindade.

Por que a igreja antiga discutiu esse título?

No século V, a controvérsia envolvendo Nestório e Cirilo de Alexandria tornou decisiva a maneira de falar da união entre a humanidade e a divindade de Cristo. Na discussão que chegou ao Concílio de Éfeso, em 431, estava em questão a unidade do Filho que nasceu de Maria. Contexto e documentos do Concílio de Éfeso.

Cirilo explicou que chamar Maria de mãe de Deus não significava atribuir a ela o começo da natureza divina. O Filho, eterno com o Pai, nasceu dela segundo a carne. Na mesma carta, escreveu:

“Não devemos, portanto, dividir o único Senhor Jesus Cristo em dois filhos.”

Tradução própria a partir da versão inglesa da Segunda Carta de Cirilo a Nestório.

Em 451, o Concílio de Calcedônia confessou o mesmo Cristo em duas naturezas, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”. Também empregou o título mãe de Deus, relacionando o nascimento de Maria à humanidade de Cristo. Essa formulação preserva tanto a distinção das naturezas quanto a unidade da pessoa. Definição de Calcedônia.

Assim, o valor cristológico do título está em impedir que separemos aquele que nasceu de Maria daquele que é eternamente o Filho de Deus.

Um cristão reformado pode reconhecer esse sentido?

Pode, desde que explique o que está afirmando.

A Confissão de Westminster ensina que o Filho eterno assumiu natureza humana no ventre da virgem Maria e que as duas naturezas estão unidas em uma só pessoa. Embora o capítulo VIII.2 não utilize o termo Theotokos, entendemos que essa cristologia permite reconhecer o título no sentido explicado aqui. Confissão de Westminster, VIII.2.

Na perspectiva reformada, os concílios são examinados à luz das Escrituras. Podemos reconhecer uma formulação verdadeira sobre Cristo sem aceitar automaticamente todas as doutrinas sustentadas pelas tradições que também a utilizam.

Também precisamos tratar com paciência quem estranha a expressão. Alguém pode rejeitá-la pensando que ela significa que Deus foi criado, enquanto confessa sinceramente que Jesus é Deus e homem. Antes de atribuir um erro doutrinário a essa pessoa, convém esclarecer o sentido das palavras.

O título não resolve todas as questões sobre Maria

Reconhecer Maria como mãe do Filho encarnado não demonstra, por si só, a imaculada conceição, a assunção de Maria ou a legitimidade de dirigir orações a ela. São questões distintas, que exigem argumentos próprios. Não podemos fazer uma palavra carregar conclusões que ela, sozinha, não estabelece.

O diálogo também exige precisão sobre aquilo de que discordamos. O ensino católico distingue a veneração de Maria da adoração devida a Deus. Podemos discordar dessa prática e de sua fundamentação sem dizer que a doutrina católica oficialmente considera Maria uma deusa. Catecismo da Igreja Católica, §971.

Na tradição reformada que orienta a Aviva, dirigimos nossa oração a Deus e confiamos na mediação de Jesus. Westminster expressa essa orientação em XXI.2–3. A singularidade da mediação salvadora de Cristo é ensinada em 1Timóteo 2:5–6; ela não elimina a intercessão entre cristãos, recomendada no início do mesmo capítulo. Westminster, XXI.2–3; 1Timóteo 2:1–6.

Essa convicção permite honrar Maria como a Escritura a apresenta: uma mulher alcançada pela graça, que creu na palavra do Senhor e se alegrou em Deus, seu Salvador. Lucas registra que ela seria chamada abençoada pelas gerações seguintes. Temos razões bíblicas para agradecer a Deus por sua vida e aprender com sua fé. Lucas 1:38,45–49.

A encarnação nos dá um Salvador em quem confiar

Uma discussão sobre palavras antigas pode parecer distante de quem luta com culpa, sofrimento ou medo da morte. Hebreus aproxima essa verdade da nossa vida: o Filho participou de nossa humanidade, sofreu e enfrentou a morte para nos libertar. Ele conhece o sofrimento humano e socorre os que são tentados. Hebreus 2:14–18.

Aquele que nasceu de Maria é o Salvador a quem podemos recorrer. Sua humanidade foi real. Sua entrega por nós foi real. Ao olhar para Cristo, encontramos motivo para confiar, confessar nossos pecados e nos aproximar de Deus.

Vale a pena aprender o significado de Theotokos e falar dele com cuidado. Mas nossa resposta precisa chegar além da precisão de uma definição: somos chamados a crer naquele que ela procura confessar.

O Filho eterno entrou na nossa história para que, pela graça, nós fôssemos recebidos na família de Deus. Gálatas 4:4–7.

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